Quando o jornalismo se mostra essencial

Por Marise Baesso*

Duas semana após a tragédia que abalou Juiz de Fora e região, é necessário afirmar com clareza: o jornalismo foi essencial. Diante de um cenário devastador — 65 mortes, milhares de pessoas desalojadas e desabrigadas —, jornalistas locais e nacionais se uniram em um esforço que ultrapassou o profissional e alcançou o humano, e por vezes o sobre-humano. A demanda não foi apenas técnica, mas também física e psicológica. Coube a esses profissionais esclarecer fatos, números, investigar causas, circular por vários pontos da cidade, fiscalizar, denunciar falhas e, sobretudo, humanizar a dor.

Com os olhos do Brasil e do mundo voltados para a cidade, o jornalismo cumpriu sua função pública. Informou sobre ruas interditadas, atualizou números de vítimas, trouxe serviços, convocou voluntários, orientou a população em tempo real. Também foi além: contou histórias, deu nome às perdas, transformou números em pessoas. Digo isso ainda comovida, pensando em Pietro, um menino de 9 anos, a última vítima a ser encontrada entre os escombros
Houve humanidade no exercício da profissão. Jornalistas choraram junto às vítimas, se comoveram diante das histórias que ouviam e, em alguns casos, descobriram que também tinham familiares ou amigos entre os atingidos. Ainda assim, permaneceram ali. Não apenas registrando, mas ajudando — orientando quem estava perdido, sendo presença em meio ao caos.

Esse cenário contrasta com uma reflexão recente que eu mesma havia feito. Dias antes da tragédia, ao preparar uma aula, critiquei o jornalismo local pela dificuldade de ir além da superficialidade das redes sociais, muitas vezes pautadas por influenciadores ou páginas sem compromisso jornalístico. O caso em questão era um tremor de 2,1 graus na escala Richter — um fenômeno que gerou dúvidas na população e que poderia ter sido melhor explicado: foi natural? Houve interferência humana? Faltou aprofundamento, faltou mediação qualificada da informação.
Talvez não por acaso, ambos os episódios — o tremor e a tragédia — nos atravessam pelo mesmo eixo: a emergência climática e seus efeitos cada vez mais presentes.

Mas, diante da catástrofe, o jornalismo respondeu. E respondeu à altura.

Como costumo dizer aos alunos, o jornalismo precisa colocar o pé no barro. E colocou. Repórteres estiveram nas ruas, nas áreas de risco, nos abrigos. Enfrentaram lama, cansaço, dor. Até mesmo âncoras de grandes telejornais deixaram os estúdios para estar diretamente do local da tragédia, reafirmando a importância da presença, do testemunho, do olhar direto.

Em tempos de desinformação e descrédito, o que se viu em Juiz de Fora foi um lembrete contundente: o jornalismo profissional ainda é indispensável. Não apenas para informar, mas para dar sentido, organizar a realidade e, sobretudo, garantir que nenhuma história — e nenhuma vida — seja esquecida. Com o coração dilacerado por tudo o que vi, cumprimento a todos os colegas e faço um apelo para que nosso jornalismo enfrente e saia da crise, afinal, ele é necessário.

* Marise Baesso é jornalista.